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09/10/2017 – Portinha na ZL era sede de empresa com contrato milionário com a PM

R7
Gustavo Basso

Esquema investigado na Lava Jato da PM pode ter desviado R$ 300 milhões

Uma sala comercial de 25m² com banheiro compartilhado, que hoje pode ser alugada por R$ 500, era a sede da empresa utilizada no suposto esquema de desvio de dinheiro envolvendo policiais do alto comando da Polícia Militar. O caso vem sendo chamado de “Lava Jato da PM”.

A descrição e o preço do local que abrigava a Construworld LTDA — na avenida São Miguel, zona leste — foram fornecidos à reportagem pela imobiliária Orel, responsável pela locação do espaço, que atualmente está vago.

O Ministério Público aponta que o esquema de fraudes em licitações que envolve a Construworld pode ter causado um prejuízo de mais de R$ 300 milhões aos cofres públicos.

A empresa, segundo o MP, teve de 2005 a 2012 (quando fechou) como dono oculto o ex-tenente coronel José Afonso Adriano Filho, que na época atuava no DSA-CG (Departamento de Suporte Administrativo do Comando-Geral). Preso e expulso da PM, Adriano tenta fechar um acordo de delação premiada com a Promotoria após enviar carta à Corregedoria da PM sugerindo questões a serem feitas a 19 oficiais (entre eles, 18 coronéis — o mais alto posto da PM).

Na semana passada, o R7 revelou que, Adriano cita no carta uma suposta reforma na sede da Secretaria de Estado da Segurança Pública e envio de materiais a um policial supostamente lotado no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista.

Sem letreiros

A maioria dos estabelecimentos ao redor do escritório — um bar, uma drogaria, duas lanchonetes, uma loja de roupas, uma barbearia, um despachante e uma clínica de estética — mudou desde 2012 (quando a empresa foi fechada).

“Letreiro mesmo dessa empresa não tinha”, o pedreiro José Lucas Neto, morador há 40 anos de uma casa a 50 metros do escritório. “O que tinha era cartão, mas nunca peguei.”

De acordo com o Ministério Público, a empresa foi de Marcio Luiz dos Santos até 2005. Em dificuldades financeiras, Santos a teria vendido, informalmente, para o ex-oficial Adriano, por R$ 5 mil. A partir de então, a empresa passou a firmar contratos com a PM. Ainda conforme a denúncia, para atuar como laranja, figurando como sócio da empresa no papel, Santos recebia, mensalmente, R$ 3,5 mil de Adriano.

O pedreiro Lucas Neto afirma conhecer o antigo dono. “Parece que hoje em dia ele está com uma loja de material lá para [o bairro de] Guaianazes”, afirma. Ele diz que Santos passa às vezes pelo local onde foi a sede da Construworld. Já o despachante Euclydes Soeiro diz lembrar vagamente de Santos. “Parece que [o fechamento da empresa] foi briga de família”, afirma.

Após ter a portinha na avenida São Miguel como sede, a Construworld passou por outros dois endereços, ambos na periferia da cidade: da avenida São Miguel, a empresa mudou-se em 2006 para a rua das Províncias, a dois quilômetros do local da primeira sede. De lá, em 2009, transferiu-se para a rua Antônia Viêira Restolho, a 20 quilômetros dos dois primeiros endereços, na Vila Zilda, extremo norte da cidade.

Secretaria não se manifesta

Questionada na sexta-feira (6), sobre se possui um sistema de checagem de empresas contratadas para evitar fraudes, a SSP (Secretaria de Estado da Segurança Pública) não se manifestou até a publicação desta reportagem.

Perguntada sobre as supostas fraudes na última segunda (2), a SSP afirmou que “a Corregedoria da Polícia Militar instaurou, em 2015, IPM [Inquérito Policial Militar] para investigar fraudes em licitações ocorridas na seção de finanças do Departamento de Suporte Administrativo da Polícia Militar”. O inquérito foi relatado à Justiça Militar em abril de 2017.

O R7 solicitou à pasta, também na segunda-feira (2), entrevista com todos os oficiais citados por Adriano em sua carta à Corregedoria, mas não foi atendido.

Na sexta-feira (6), a reportagem procurou Marcio Luiz dos Santos nos telefones e endereços — inclusive em seu endereço residencial, na zona note — que constam do cadastro da empresa, mas não o localizou.

Os advogados de Adriano não foram encontrados entre a noite de sexta-feira (6) e a manhã desta segunda-feira (9) para comentar o caso. Na terça-feira passada (3), a defesa do ex-oficial afirmou que Adriano não fez acusações, mas sugeriu perguntas, e que somente após os citatos se manifestarem, ele se dispõe a falar.